No comércio eletrônico, poucas fraudes começam com um ataque direto. A maioria nasce da combinação inteligente de dados vazados, informações públicas e vulnerabilidades aparentemente inofensivas. Desse modo, a fraude informacional tornou-se uma das maiores ameaças ao e-commerce.
Diferentemente do que muitos imaginam, os criminosos já não dependem exclusivamente de grandes invasões ou sofisticados ataques cibernéticos para causar prejuízos. Na maioria das vezes, eles utilizam informações dispersas, muitas delas disponíveis publicamente ou obtidas em pequenos vazamentos de dados, para construir ataques direcionados contra empresas, consumidores e parceiros.
Nos últimos anos com a alta digitalização da população, o e-commerce ampliou significativamente seu volume de informações. Cada cadastro realizado, compra concluída, entrega efetuada ou atendimento prestado gera novos dados sobre clientes, dispositivos, hábitos de consumo e comportamentos.
Esse ‘patrimônio informacional’ virou um ativo estratégico para as empresas, mas também passou a despertar o interesse crescente de organizações criminosas.
O problema é que a maioria das empresas ainda associa riscos apenas a grandes incidentes de segurança ou ao vazamento de dados em larga escala. Na prática, porém, um único conjunto de informações aparentemente inofensivas pode ser suficiente para que fraudadores desenvolvam campanhas de engenharia social, assumam contas de clientes ou realizem fraudes financeiras.
Para se ter uma ideia, o comércio eletrônico brasileiro registrou mais de 368 mil tentativas de fraude no primeiro trimestre de 2026, conforme o Mapa da Fraude da Serasa.
Leia: Roubo de informações: por que dados são o ativo mais visado?
Custo da violação de dados
Segundo o relatório IBM Cost of a Data Breach, o custo médio global de um incidente de violação de dados é de US$ 4,4 milhões, impulsionado principalmente pelo aumento da sofisticação dos ataques e pelo uso crescente de informações roubadas para fraudes secundárias.
Inclusive, as informações de identificação pessoal dos clientes foram o tipo de dado mais roubado ou comprometido, com 53%.
O estudo demonstra ainda que organizações que conseguem identificar rapidamente atividades suspeitas reduzem significativamente os impactos financeiros e operacionais decorrentes desses incidentes.
Esse cenário reforça uma mudança importante na gestão de riscos. Proteger dados continua sendo essencial, mas já não basta. É preciso compreender como essas informações podem ser exploradas por fraudadores e estruturar mecanismos capazes de identificar sinais antes que eles se transformem em prejuízo.
Veja: Account Takeover: sua empresa está subestimando o risco?
O que é fraude informacional?
A fraude informacional é a utilização estratégica de informações para facilitar, viabilizar ou potencializar fraudes.
Ao contrário do que ocorre em ataques puramente técnicos, o objetivo do criminoso não é apenas invadir sistemas. O foco está em reunir informações suficientes para compreender o funcionamento da empresa, identificar vulnerabilidades e aumentar significativamente a probabilidade de sucesso de uma fraude.
Na prática, o fraudador atua como um analista de inteligência, coletando dados provenientes de diferentes fontes, cruzando informações, identificando padrões de comportamento e montando um perfil detalhado de sua vítima antes mesmo de iniciar qualquer ataque.
É justamente essa capacidade de transformar informações aparentemente desconectadas em inteligência criminosa que torna a fraude informacional tão perigosa.
Uma analogia simples ajuda a entender esse processo. Imagine que um vazamento de dados entrega apenas algumas peças de um quebra-cabeça. Sozinhas, elas pouco dizem. Mas o fraudador reúne peças provenientes de diferentes fontes até formar uma imagem completa da vítima, identificando seus hábitos, sua rotina, seus relacionamentos e suas vulnerabilidades.
Quanto maior esse nível de conhecimento, menor tende a ser o esforço necessário para aplicar uma fraude tanto no consumidor, como nas empresas.
Por que a fraude informacional cresce tanto no e-commerce?
Alto volume de informações
Poucos setores produzem tanto conhecimento sobre consumidores quanto o comércio eletrônico. Cada interação deixa rastros digitais que ajudam empresas a oferecer experiências mais personalizadas, otimizar campanhas e aumentar conversões. Ao mesmo tempo, essas informações também despertam o interesse de grupos criminosos.
Uma única operação de e-commerce costuma armazenar:
- Nome completo;
- CPF;
- Telefone;
- Endereço;
- E-mail;
- Histórico de compras;
- Produtos pesquisados;
- Preferências de consumo;
- Dispositivos utilizados;
- Geolocalização aproximada;
- Métodos de pagamento;
- Comportamento de navegação;
- Frequência de compras;
- Horários de acesso;
- Relacionamento com canais de atendimento.
Essa riqueza de informações que torna o e-commerce um ambiente tão atrativo para fraudadores.
Além disso, o crescimento acelerado das vendas online ampliou a superfície de ataque das empresas. Segundo a ABComm (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico), o comércio eletrônico brasileiro deve movimentar cerca de R$ 260 bilhões neste ano e alcançar 100 milhões de compradores únicos.
Quanto maior o volume de transações, maior tende a ser a circulação de dados e, consequentemente, o interesse das organizações criminosas.
Aumento no vazamento de credenciais
Outro fator importante é o crescimento dos vazamentos de credenciais. O relatório Verizon Data Breach Investigations Report (DBIR) mostra que o uso de credenciais comprometidas continua figurando entre os principais vetores de incidentes de segurança.
Isso significa que muitos ataques não começam com invasões sofisticadas, mas com informações que já circulam na internet há meses ou até anos. O problema não é apenas que os dados vazam, mas que eles continuam sendo reutilizados indefinidamente por criminosos.
Essa realidade explica por que empresas podem sofrer ataques mesmo após corrigirem vulnerabilidades antigas. Enquanto permanecerem disponíveis em fóruns clandestinos ou forem reutilizados pelos próprios usuários em diferentes serviços, os dados continuarão alimentando novas campanhas de fraude.
Profissionalização do crime organizado
Hoje, muitos grupos operam como verdadeiras empresas. Existem equipes responsáveis exclusivamente por coletar informações, outras dedicadas à venda de bases de dados, especialistas em engenharia social, operadores financeiros e desenvolvedores de ferramentas automatizadas para explorar essas informações em larga escala.
Essa divisão de funções tornou a fraude informacional muito mais eficiente, escalável e difícil de identificar. Como consequência, os ataques deixaram de ser aleatórios, sendo planejados com base em inteligência.
O criminoso já sabe quem atacar, quando atacar, qual linguagem utilizar e quais informações apresentar para conquistar a confiança da vítima. Por isso, tantas fraudes conseguem ultrapassar controles tradicionais de segurança, explorando não apenas vulnerabilidades tecnológicas, mas também confiança, contexto e informação.
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Como os criminosos transformam dados em ataques
A fraude informacional ocorre por meio de um processo estruturado de coleta, análise e utilização de informações. Cada informação obtida ajuda o criminoso a reduzir incertezas, aumentar a credibilidade de suas abordagens e tornar o ataque mais difícil de ser identificado. Veja como funciona:
1. Coleta de informações
A primeira etapa consiste em reunir o maior volume possível de informações sobre pessoas, empresas e operações. Os fraudadores costumam explorar bases de dados vazadas, redes sociais de clientes e colaboradores, perfis profissionais em plataformas como LinkedIn, documentos públicos, informações divulgadas por parceiros, dados comercializados na dark web e credenciais comprometidas em vazamentos antigos.
2. Correlação dos dados
Depois da coleta, os criminosos conectam as informações aparentemente sem relação. É nesse momento que nasce a inteligência utilizada pelos fraudadores. Um simples CPF pode ser relacionado a endereço residencial, número de telefone, e-mail, perfil em rede social, histórico de compras, familiares, empresa onde trabalho, cargo ocupado, renda aproximada ou hábitos de consumo.
Quanto maior essa capacidade de correlação, mais convincente pode ser um golpe de engenharia social, por exemplo. Por isso, os ataques modernos costumam parecer extremamente personalizados.
Segundo Kevin Mitnick, um dos hackers e especialistas em segurança mais famosos do mundo, considerado o principal pioneiro da engenharia social: “O fator humano é o elo mais fraco da segurança.”
3. Construção do perfil da vítima
Com as informações organizadas, o criminoso consegue entender o comportamento da vítima, identificando:
- Horários em que costuma comprar;
- Produtos mais adquiridos;
- Frequência de compras;
- Padrão de gastos;
- Formas de pagamento utilizadas;
- Localização habitual;
- Dispositivos normalmente empregados.
Esse perfil permite reproduzir comportamentos considerados “normais” pelos mecanismos de prevenção à fraude. Na prática, o fraudador tenta parecer um cliente legítimo. Assim, é possível enganar as plataformas de e-commerce com a invasão de contas e a realização de compras que não serão pagas.
4. Execução do golpe
Somente depois de reunir inteligência suficiente ocorre a tentativa de fraude. A depender do objetivo, a fraude pode assumir diferentes formatos. Entre os mais comuns no comércio eletrônico estão:
- Tomada de conta (Account Takeover);
- Alteração de endereço de entrega;
- Fraude cadastral;
- Criação de contas falsas;
- Utilização de cartões comprometidos;
- Fraude em programas de fidelidade;
- Golpes envolvendo PIX;
- Engenharia social contra os próprios clientes;
- Falsos contatos do suporte;
- Golpes da falsa central de atendimento.
Principais sinais de fraude informacional no e-commerce
Uma característica importante é que a fraude informacional costuma deixar pequenos indícios muito antes de provocar um incidente relevante. O problema é que esses sinais normalmente aparecem de forma isolada e acabam sendo interpretados como eventos operacionais comuns.
Quando analisados em conjunto, porém, revelam padrões que merecem investigação. Conhecer esses comportamentos permite antecipar ameaças antes que se transformem em perdas financeiras.
Aumento repentino de alterações cadastrais
Mudanças frequentes de endereço, telefone, e-mail ou dados de contato podem indicar tentativa de preparação para futuras fraudes. Nem toda alteração representa um problema. Mas modificações concentradas em determinados perfis ou realizadas logo antes de compras de maior valor merecem atenção.
Crescimento incomum de solicitações de redefinição de senha
Os fraudadores frequentemente tentam assumir contas legítimas antes mesmo de realizar compras. Um aumento nas solicitações de recuperação de senha pode indicar campanhas automatizadas de Account Takeover.
Logins incompatíveis com o histórico do cliente
Mudanças bruscas no comportamento de acesso também representam um importante indicador, como dispositivos nunca utilizados, navegadores incomuns, países diferentes, horários atípicos ou múltiplos acessos simultâneos.
Mudança repentina do comportamento de compra
Outro sinal importante ocorre quando clientes passam a apresentar um comportamento completamente diferente do histórico habitual.
Entre os exemplos mais comuns estão:
- Aumento expressivo do valor médio das compras;
- Aquisição de produtos totalmente diferentes;
- Múltiplos pedidos em curto espaço de tempo;
- Utilização de novos meios de pagamento;
- Alteração frequente do endereço de entrega.
Crescimento de contas recém-criadas com comportamento incomum
Os fraudadores costumam criar diversas contas utilizando informações parcialmente verdadeiras. Esses perfis frequentemente apresentam características semelhantes:
- Cadastros realizados em sequência;
- E-mails descartáveis;
- Telefones virtuais;
- Documentos relacionados entre si;
- Comportamento automatizado.
O desafio é perceber que dezenas de contas fazem parte da mesma campanha fraudulenta.
Aumento de contatos suspeitos ao atendimento
Muitas fraudes começam pelo relacionamento com o SAC. O criminoso tenta obter informações adicionais antes de executar o golpe. Perguntas aparentemente simples podem revelar procedimentos internos, políticas de autenticação, regras de devolução, critérios para alteração cadastral e processos logísticos.
Essas informações ajudam a construir ataques muito mais convincentes.
Crescimento de chargebacks e disputas incomuns
Nem todo chargeback representa fraude informacional. Mas aumentos concentrados em determinados produtos, regiões ou perfis de consumidores podem indicar campanhas organizadas. Nesses casos, investigar o contexto costuma ser muito mais eficiente do que simplesmente absorver o prejuízo.
Reutilização de dados entre diferentes contas
Um dos sinais mais relevantes envolve relacionamentos invisíveis. Por exemplo:
- O mesmo telefone utilizado em vários cadastros;
- Um único dispositivo acessando dezenas de contas;
- Múltiplos clientes utilizando o mesmo endereço IP;
- Diferentes perfis compartilhando informações semelhantes.
Como estruturar uma estratégia para enfrentar a fraude informacional
Muitas empresas concentram seus investimentos em ferramentas de detecção de fraude apenas na etapa final da operação, quando a transação já está acontecendo. O problema é que, nesse momento, boa parte da inteligência utilizada pelos criminosos já foi construída.
Uma estratégia realmente eficaz precisa atuar antes da fraude acontecer. Isso significa reduzir oportunidades de coleta de informações, identificar comportamentos suspeitos e investigar continuamente novos padrões utilizados pelos fraudadores.
Fortaleça a governança das informações
O primeiro passo consiste em conhecer exatamente quais informações a empresa coleta, onde elas estão armazenadas e quem possui acesso. Sem essa visibilidade, torna-se praticamente impossível proteger dados críticos.
Nesse contexto, políticas de classificação da informação, controle de acessos, criptografia e aderência à LGPD passam a representar mecanismos essenciais de redução de riscos.
Monitore continuamente a exposição de dados
É importante acompanhar se as informações relacionadas à organização, colaboradores ou clientes estão circulando indevidamente na internet ou em ambientes clandestinos. O monitoramento contínuo permite identificar precocemente:
- Credenciais comprometidas;
- Bases de dados comercializadas;
- Domínios falsos;
- Campanhas de phishing;
- Perfis fraudulentos;
- Utilização indevida da marca.
Quanto mais cedo esses sinais forem identificados, menores tendem a ser os impactos.
Adote autenticação forte e gestão inteligente de acessos
Boa parte das fraudes informacionais evolui para tentativas de comprometimento de contas. Por isso, mecanismos como autenticação multifator (MFA), verificação biométrica e revisão periódica de privilégios representam controles fundamentais para reduzir o sucesso desses ataques.
Capacite continuamente colaboradores
Os fraudadores estudam pessoas tanto quanto estudam sistemas. Desse modo, programas de conscientização não podem se limitar a treinamentos anuais e precisam ser iniciativas contínuas envolvendo campanhas educativas, simulações de phishing, atualização sobre novas fraudes, comunicação frequente e protocolos para decisões críticas.
O objetivo é desenvolver uma cultura preventiva, na qual colaboradores consigam reconhecer comportamentos suspeitos antes que eles resultem em incidentes.
Investigue padrões, não apenas ocorrências
As empresas menos maduras analisam apenas cada fraude individualmente. Já as mais preparadas procuram responder perguntas muito mais estratégicas:
- Existe relação entre diferentes incidentes?
- Há repetição de dispositivos?
- Os mesmos documentos aparecem em várias contas?
- Existe um grupo atuando de forma organizada?
- O modus operandi está evoluindo?
Desvendar essas questões permite investigar e interromper campanhas inteiras de fraude, e não apenas bloquear uma única tentativa, além de identificar e responsabilizar os culpados.
Como a GIF International ajuda empresas a combater a fraude informacional
O combate à fraude informacional exige muito mais do que ferramentas tecnológicas. É necessário compreender como os criminosos operam, quais informações utilizam para construir seus ataques e de que forma pequenas vulnerabilidades podem ser exploradas para gerar grandes prejuízos.
Na GIF International, nossa abordagem combina investigação corporativa, inteligência aplicada, análise forense e avaliações de riscos para ajudar operações de e-commerce a investigar atividades suspeitas e fortalecer seus mecanismos de proteção.
Entre as principais frentes de atuação estão:
- Investigação de fraudes digitais envolvendo operações de e-commerce;
- Identificação de vulnerabilidades em processos operacionais e digitais;
- Mapeamento de riscos relacionados a parceiros, fornecedores e terceiros;
- Monitoramento de ameaças que possam impactar operações digitais.
Fato é que a inteligência dos fraudadores evoluiu. A sua estratégia de combate a fraudes também evoluiu?
Converse com nossos especialistas e descubra como para proteger sua operação.
FAQ sobre fraude informacional
O que é fraude informacional?
Fraude informacional é o uso estratégico de informações obtidas por meios lícitos ou ilícitos para facilitar golpes, fraudes financeiras, engenharia social e outras ações criminosas.
Qual a diferença entre vazamento de dados e fraude informacional?
O vazamento de dados é a exposição indevida de informações. Já a fraude informacional ocorre quando essas informações são utilizadas de forma estratégica para construir e executar ataques.
Como a fraude informacional afeta o e-commerce?
Pode resultar em tomada de contas de clientes, fraudes cadastrais, chargebacks, golpes envolvendo engenharia social, perda de confiança dos consumidores e prejuízos financeiros.













