A expressão conta bolsão ganhou destaque no ecossistema financeiro brasileiro nos últimos anos como um termo associado a contas bancárias de baixa movimentação que operam fora dos modelos tradicionais de uso e controle detalhado.
Embora possam surgir de necessidades legítimas, como gerenciar fundos de clientes em contextos específicos, elas têm sido exploradas por agentes mal-intencionados para ocultar fluxos, mascarar transações e dificultar rastreamento.
Para gestores de fraudes, riscos e segurança no setor financeiro, entender os riscos e impactos da conta bolsão é essencial para estruturar programas de mitigação eficazes.
O que é uma conta bolsão?
Uma conta bolsão é, em essência, uma conta bancária ou conta financeira que apresenta 4 características principais:
- Alta captação ou acumulação de recursos em um “bolsão”, ou seja, um saldo grande retido por longos períodos;
- Movimentações internas que não correspondem claramente às operações típicas do cliente;
- Baixa frequência transacional, mas elevado volume em alguns eventos;
- Utilização para concentração de recursos que depois são dispersos de formas pouco transparentes.
Esse tipo de conta costuma aparecer em contextos de fraudes econômicas sofisticadas, a fim de evitar detecção por mecanismos tradicionais de compliance, como monitoramento de transações atípicas, validações robustas e análise de perfil.
Conta bolsão fintech: por que o termo aparece neste contexto?
Quando o termo aparece em conjunto com fintech, geralmente se refere a:
- Contas de pagamento ou subcontas criadas dentro de arranjos alternativos;
- Carteiras digitais com funcionalidades de custódia ou depósito temporário;
- Mecanismos de pools de liquidez usados por intermediários de pagamentos.
- Contas criadas para segmentar e agrupar transações em etapas intermediárias.
Essas estruturas podem coexistir em modelos legítimos, mas também podem ser exploradas como “bolsões” opacos se houver falhas em governança, regras de liquidação ou controles antifraude.
Por que contas bolsão representam riscos no segmento financeiro?
As contas bolsão podem não ser fraudulentas por natureza. No entanto, elas apresentam atributos de risco que as tornam especialmente vulneráveis a:
Ocultação de fluxos financeiros
Quando grandes volumes ficam concentrados e depois são dispersos em múltiplas transações pequenas, as técnicas tradicionais de detecção de anomalias podem não identificar padrões porque:
- Valores são fragmentados;
- Origem e destino são encobertos por relações complexas;
- Não existe um histórico transacional padrão.
Concentração de fundos sem correspondência operacional clara
Em modelos tradicionais, contas com alto saldo tendem a ser associadas a operações produtivas ou de investimento. Porém, quando isso não ocorre, pode indicar captação de recursos de forma ilícita, aglomerações de fundos antes de dispersão suspeita, ou uso de contas de fachada (“laranjas”).
Intermediação de terceiros sem transparência
Contas bolsão podem ser usadas por intermediários (por exemplo, fintechs parceiras ou agentes de pagamento) que servem como ponte para o fluxo financeiro principal, mas sem instrumentos adequados de due diligence ou monitoramento.
Essa intermediação pode mascarar a origem dos fundos e dificultar a rastreabilidade por parte de sistemas antifraude.
Exploração de deficiências de compliance e governança
Com múltiplas subcontas ou estruturas de custódia intermediária, há o risco de não cumprir o compliance bancário. Isso acontece especialmente se não existirem mecanismos de verificação contínua, trilhas auditáveis de consentimentos e processos bem definidos de Know Your Customer (KYC).
Conheça as modalidades de fraude envolvendo contas bolsão
Para gestores de fraudes e riscos, compreender como as contas bolsão podem ser usadas em esquemas ilícitos ajuda a desenhar defesas mais eficazes. Veja as modalidades mais frequentes:
1. Fragmentação de fluxos para driblar detecção
Fluxos financeiros são divididos em etapas intermediárias onde uma conta bolsão concentra grandes volumes, que depois são distribuídos em pequenas parcelas para diversas contas finais.
Essa situação dificulta o rastreamento e pode ser usada para lavagem de dinheiro, evasão, camuflagem de transferências ilícitas ou movimentação de recursos obtidos por fraude.
2. Uso de intermediários com controles frágeis
Em modelos de pagamento digital ou custódia, contas bolsão podem ser criadas por empresas que atuam como intermediárias, como fintechs que agregam carteiras, gateways de pagamento com subcontas para liquidação ou instituições de pagamento com pools de liquidez.
Quando esses intermediários possuem controles inadequados de compliance, eles podem se tornar vetores de fraude, oferecendo “cobertura operacional” para contas de fachada.
3. Esquemas de antecipação e cobertura de débito
Os sistemas que permitem autorização de débito e posterior alocação de fundos podem ser explorados por fraudadores para gerar movimentações aparentes legítimas, criar saldos artificiais antes da dispersão e simular fluxo operacional falso para mascarar a origem.
4. Manipulação de contrapartes e relacionamentos ocultos
Quando as instituições não exigem processos avançados de KYC, os fraudadores podem criar estruturas de contas com vínculos societários falsos, empresas e agentes intermediários sem histórico, e CPFs ou CNPJs de baixo risco aparente, mas com relações ocultas a redes de fraude.
Leia também: Febraban anuncia autorregulação para fechar contas de atividades ilícitas
Por que o problema da conta bolsão ganhou mais relevância atualmente?
Vários fatores contribuíram para tornar a questão da conta bolsão um problema estratégico:
Expansão do Open Finance
A abertura de dados financeiros e a criação de ambientes interoperáveis aumentaram o volume e a complexidade dos fluxos financeiros. Como consequência, cresceram as oportunidades para estruturas intermediárias como contas bolsão.
Aumento de fintechs e novos modelos de custódia
Com o crescimento de players que atuam em nichos (wallets, contas digitais e plataformas de integração), surgem mais subcontas e pools de liquidez que podem funcionar como contas bolsão se não forem bem controlados.
Pressão regulatória e foco em governança
Os órgãos reguladores têm intensificado a fiscalização sobre o compliance regulatório. Isso envolve controles de prevenção à lavagem de dinheiro, due diligence de terceiros, processos de verificação de usuários, monitoramento contínuo de transações, auditorias, entre outras medidas.
Como mitigar o risco de fraudes associadas a contas bolsão?
É fundamental adotar um conjunto de ações que protegem o ecossistema financeiro de forma consistente contra as fraudes. Confira boas práticas:
Governança e classificação de contas internas
A instituição deve categorizar todas as contas segundo:
- Finalidade operacional;
- Risco associado;
- Atividades permitidas;
- Padrões esperados de transação;
- Vínculos com clientes, terceiros e intermediários.
Essa classificação facilita políticas específicas de controle e monitoramento.
Due Diligence profunda de terceiros e intermediários
É importante implementar uma investigação de due diligence que vá além de simples listas de PEPs (Pessoas Expostas Politicamente) ou pessoas envolvidas em sanções. Assim, é possível avaliar conexões societárias, histórico operacional, cruzar relacionamentos, padrões de uso e correlação com grupos de risco.
As ferramentas modernas permitem mapear relações complexas, facilitando a detecção de estruturas usadas como contas bolsão maliciosas. E, sem o due diligence de terceiros, você não conhece o operador da conta bolsão.
Monitoração contínua e análise comportamental
As contas bolsão normalmente se destacam por picos atípicos de movimentação, valores concentrados por longos períodos, dispersão fragmentada e padrões que não se alinham ao perfil do cliente.
Atualmente, os modelos de análise comportamental conseguem identificar esses desvios com maior antecedência do que regras fixas.
Integração de dados e análise de vínculos
Não basta monitorar uma conta isolada. É preciso compreender sua posição na rede financeira: com quem ela se relaciona? Quais intermediários estão envolvidos? Existe histórico de múltiplas contas associadas?
A análise de vínculos entre usuários, intermediários e grupos de risco com uma espécie de mapa de rede ajuda a identificar clusters suspeitos que escapam de análises convencionais.
Automação de alertas
A instituição deve estabelecer workflows que geram alertas automáticos para padrões suspeitos, acionam revisões por humanos e criam trilhas investigativas em caso de suspeitas.
Revisão permanente de políticas internas
A dinâmica de contas bolsão evolui com o mercado, com modelos novos de fintechs, serviços de pagamento e arranjos de custódia. Por isso, não se esqueça de revisar com frequência políticas de KYC, validação de beneficiários, limitação de saldo, e regras e gatilhos para dispersão de dinheiro.
Leia também: Compliance, TI e Operações: como alinhar forças contra fraudes
Nova regulamentação: o fim das contas bolsão como prática irregular
Diante do uso crescente das chamadas contas bolsão em esquemas de fraude e atividades ilícitas, o Banco Central publicou uma nova norma com o objetivo de eliminar essa prática irregular e reforçar a segurança do sistema financeiro nacional.
O que as novas regras determinam?
Em 3 de novembro de 2025, o Banco Central conjuntamente com o Conselho Monetário Nacional (CMN) divulgou a Resolução CMN nº 5.261 e a Resolução BCB nº 518. As legislações obrigam instituições financeiras a encerrar contas de depósito ou de pagamento sempre que detectarem características de contas bolsão usadas de forma irregular.
Essas normas entraram em vigor em 1º de dezembro de 2025 e têm como objetivo claro impedir a utilização das contas para:
- Ocultar a identificação dos titulares ou beneficiários finais;
- Facilitar movimentações em nome de terceiros sem relação direta com o usuário;
- Esconder transações ilícitas como fraudes ou lavagem de dinheiro.
Titularidade individualizada e responsabilidade
Uma parte importante da nova regra está na regulamentação do modelo de Banking as a Service (BaaS), que permite a empresas não financeiras oferecerem serviços bancários por meio de instituições credenciadas.
A norma deixa explícito que cada conta deve identificar o titular individualmente, as movimentações só podem ocorrer diretamente pelo cliente titular, e a instituição financeira é sempre a responsável final pelas operações, mesmo quando parte do serviço é terceirizado.
Essa mudança é crucial, já que contas bolsão funcionavam reunindo recursos de múltiplos usuários em uma única conta em nome de um terceiro (como fintechs) sem identificar cada titular individualmente.
Cronograma de adaptação
Quando uma conta é considerada irregular por apresentar características de conta bolsão, ela deve ser encerrada compulsoriamente pela instituição, após comunicação ao cliente e à autoridade regulatória.
Para fins de fiscalização, a documentação referente às contas encerradas deve ser mantida por pelo menos dez anos, garantindo trilhas auditáveis e possibilitando auditorias retroativas.
A regulamentação deixa claro que mesmo contratos ou estruturas existentes devem se adaptar para cumprir as novas exigências até 31 de dezembro de 2026. Assim, é possível eliminar progressivamente o uso irregular de contas bolsão.
Como a GIF International ajuda a mitigar riscos da conta bolsão
A GIF International apoia instituições do segmento financeiro com diversas soluções de combate a fraudes, como por exemplo:
- Due diligence avançada de terceiros e parceiros para mitigar riscos e antecipar fraudes;
- Programas sólidos de prevenção à lavagem de dinheiro com processos estruturados, incluindo Know Your Customer, e cumprimento das normas;
- Investigações corporativas e análise forense quando há ocorrência de fraudes.
Se você quer elevar o nível de proteção da sua instituição contra fraudes complexas, inclusive aquelas que exploram contas bolsão, converse com nossos especialistas da GIF International.
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