O pagamento de propinas permanece como uma das fraudes corporativas mais recorrentes no Brasil e no mundo, apesar dos avanços regulatórios, das pressões de mercado e da maturidade crescente dos programas de integridade.
A questão central, porém, não é apenas a ocorrência dos delitos e sim as condições culturais que o permitem florescer. A cada novo caso investigado, surge um elemento comum de que alguém sabia, mas ninguém agiu.
Isso revela que a propina não nasce isoladamente. Ela nasce de permissividades internas, incentivos distorcidos, lideranças frágeis e controles que não condizem com o cotidiano real da empresa.
Neste artigo na GIF International, vamos refletir como o pagamento de propinas é, sobretudo, um problema de cultura organizacional e como mitigá-lo.
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Qual a diferença entre corrupção, suborno e propina?
A corrupção, suborno e propina corporativo são termos que frequentemente se confundem, mas têm significados distintos. A corrupção é um ato ilícito que visa obter benefícios pessoais ou para terceiros, geralmente à custa do interesse da empresa.
O suborno é uma forma de corrupção que envolve a oferta ou pagamento de dinheiro ou outros favores a alguém dentro da empresa para influenciar suas decisões, como por exemplo, na escolha de um fornecedor. Já a propina é o dinheiro usado para pagar alguém pela prática de atos ilícitos.
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Quantas empresas sofrem com pagamento de propinas?
Vale destacar que situações de suborno e corrupção atingiram 41% das empresas brasileiras, segundo pesquisa da PwC. Para piorar, apenas 4 em cada 10 companhias possuem um programa para lidar com esse tipo de caso, o que é um fator decisivo para aumentar a ocorrência.
Além disso, 29% das organizações verificaram casos de propina de fornecedores, de acordo com estudo da Deloitte. Outros tipos frequentes de fraudes foram:
- Conflito de interesses não divulgado (65%);
- Favores pessoais (41%);
- Suborno e/ou extorsão (35%).
Por que o pagamento de propinas ocorre?
Há 4 fatores que, quando combinados, tornam a empresa vulnerável ao pagamento de propinas:
1. Cultura permissiva
Quando padrões éticos não são reforçados diariamente, e quando comportamentos desviantes não sofrem consequências, cria-se o terreno perfeito para o surgimento da propina.
Veja sinais típicos de culturas permissivas:
- Líderes que valorizam “resultado a qualquer custo”;
- Tolerância informal a pequenas violações (“todo mundo faz”);
- Ausência de canais efetivos de denúncia;
- Falta de exemplo ético por parte da liderança.
2. Incentivos comerciais distorcidos
As pressões comerciais podem induzir comportamentos ilegais. Confira exemplos reais observados em investigações:
- Bonificações elevadas para fechamento de contratos, sem mecanismos de verificação de integridade;
- Metas agressivas que só podem ser atingidas por meios ilícitos;
- Terceiros contratados sem due diligence para “acelerar processos”.
3. Fraquezas em compliance e auditorias
Mesmo empresas com estruturas de compliance formalizadas podem cair em armadilhas operacionais. Entre as falhas mais comuns estão:
- Mapeamento superficial de riscos;
- Due diligence incompleto ou inexistente;
- Ausência de monitoramento contínuo de pagamentos suspeitos;
- Falta de auditoria externa independente.
4. Terceirização sem controles
A maior parte das propinas é paga por terceiros, e não por funcionários diretamente. Ou seja, os casos de suborno corporativo podem envolver intermediários, como consultores, distribuidores, parceiros comerciais, escritórios de advocacia etc.
Quais são situações típicas de pagamento de propinas dentro das empresas?
Pagamento para influenciar licitações públicas: inclui “taxas de sucesso” ou comissões inusitadas a intermediários para viabilizar contratos governamentais.
Propina para acelerar aprovações regulatórias: casos envolvendo liberação de licenças, certidões, autorizações ou fiscalizações.
Pagamento a fornecedores internos: funcionário responsável por compras recebe comissão ilegal para direcionar o contrato.
Vouchers, viagens e presentes acima do permitido: benefícios disfarçados que influenciam tomada de decisão.
Pagamentos “fechados” via consultorias fictícias: criação de contratos artificiais para mascarar transferências.
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Como identificar que sua empresa está vulnerável?
- Pagamentos sem contrato, ou sem escopo definido, ou recorrentes a terceiros que não têm justificativa clara;
- Intermediários que surgem de forma repentina, sem processos transparentes e não são rastreáveis;
- Falta de segregação de funções: um mesmo funcionário aprova, contrata e fiscaliza um fornecedor;
- Colaboradores que recusam compartilhar dados ou documentos e se irritam com solicitações;
- Ausência de trilhas de auditoria e operações sem registros completos.
Como mitigar o risco de pagamento de propinas?
Diante deste cenário desafiador, os gestores de compliance, jurídico, auditoria e governança precisam introduzir estratégias práticas para reduzir riscos. Confira medidas para implementar o quanto antes:
Construir uma cultura de integridade real
O primeiro passo é tornar a cultura forte o suficiente para que comportamentos antiéticos não se instalem. É importante contar com:
- Código de ética que sai do papel e é vivido no dia a dia;
- Treinamento contínuo e baseado em casos reais;
- Liderança praticando o exemplo;
- Regras de conflito de interesses claras;
- Sanções consistentes para violações, independentemente do cargo.
Estruturar um programa de integridade robusto
Os elementos essenciais incluem apoio da alta administração, avaliação contínua de riscos, controles internos efetivos, monitoramento de transações sensíveis, auditorias independentes, canais de denúncia seguros e due diligence de terceiros.
Implementar auditoria externa periódica
A auditoria externa atua como um mecanismo independente de validação, identificando falhas de controle que colaboradores internos não enxergam.
Entre os benefícios, as empresas podem obter recomendações imparciais, ter maior visibilidade de processos e controles, impedir que antigos vícios nas operações continuem e reforçar a transparência.
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Monitoramento ativo de pagamentos, contratos e terceiros
Conforme padrões internacionais (ISO 37001 e ISO 37301), é importante criar matrizes de risco por fornecedor, implementar análise contínua de pagamentos incomuns, mapear conexões entre terceiros e colaboradores, e reforçar a validação de processos de compras.
Além disso, é bom contar com soluções tecnológicas para análise de dados e cruzamento de informações.
Fortalecer o canal de denúncia e proteção ao denunciante
Um canal efetivo deve ser confidencial, independente, acessível, transparente, comunicado para todos e, protegido contra retaliações.
Treinar equipes com cenários reais
Não basta conhecer as regras relacionadas a fraudes internas, conflitos de interesse, corrupção e pagamento de propinas. É preciso reconhecer situações reais.
Para alcançar este objetivo, vale a pena criar simulações de cenários de fraudes envolvendo suborno e pagamentos, estudos de casos conhecidos no mercado, trazer discussões sobre dilemas éticos e fronteiras cinzentas dentro de políticas de brindes, por exemplo.
Fortalecer o engajamento da liderança
Os gestores e líderes são um dos maiores fatores de proteção. Quando eles demonstram ética e integridade, a cultura se solidifica, os colaboradores se sentem seguros e se inspiram no exemplo. Como consequência, o risco de propina cai drasticamente.
Por outro lado, quando os líderes demonstram tolerância, a cultura entra em colapso e o risco aumenta, independentemente dos processos.
O papel da GIF International no combate aos riscos de propina
As empresas que investem em prevenção, detecção e investigação não apenas reduzem riscos financeiros e jurídicos, assim como protegem sua reputação, sua governança e sua capacidade de crescer de forma sustentável.
A GIF International atua apoiando empresas com um ecossistema completo de combate a fraudes e riscos corporativos, que combina:
- Mapeamento de riscos e vulnerabilidades em processos, políticas, operações etc.;
- Investigações corporativas de fraudes internas e externas de alta complexidade;
- Due diligence avançado de terceiros;
- Análise forense digital de dados e contratos.
Nossa abordagem conecta inteligência, tecnologia e expertise, permitindo não só identificar riscos, mas também investigar fraudes com agilidade e precisão.
Quer saber mais informações sobre como podemos ajudar sua empresa? Entre em contato conosco agora mesmo!
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