A fraude não se resolve só com tecnologia, alertas automáticos, análises manuais e bloqueios. No fim do dia, o que move decisões empresariais, ações disciplinares, medidas corretivas e até processos jurídicos é o relatório de investigação.
Esse elemento é uma parte crucial dos processos de investigação. Inclusive, é bom lembrar que muitas empresas até investigam bem, mas documentam mal. Como resultado, ocorrem relatórios confusos, sem narrativa clara, sem análise detalhada, sem ligação com impacto real no negócio e que não geram decisão nenhuma.
Para se ter uma ideia da importância do documento, 71% das empresas que sofreram um incidente encomendam uma investigação, segundo pesquisa da PwC. Isso mostra que o relatório de investigação tem papel direto para melhorar os processos de controle e prevenção de fraudes futuras.
Neste guia, vamos falar sobre exemplos práticos de uso do relatório para tomada de decisão e como transformar o documento em uma ferramenta real de combate a fraudes, e não só em um PDF esquecido. Se você atua com fraudes, riscos, compliance, auditoria ou segurança da informação, este artigo pode te ajudar.
O que é o relatório de investigação?
O relatório de investigação é um documento que conecta evidências a decisões. Não é um simples “relatório de ocorrência”, mas sim uma documentação estratégica.
Na prática, o relatório cumpre quatro funções críticas:
- Consolida evidências (físicas, digitais, documentais e humanas);
- Reconstrói o que aconteceu (modus operandi, falhas exploradas e envolvidos);
- Traduz os riscos em impacto de negócio (perdas, exposição e risco residual);
- Gera recomendações acionáveis (como responsabilizar os infratores, o que mudar, como mitigar riscos, quem deve agir etc.).
Em segmentos com ambientes regulados, como por exemplo o financeiro, um bom relatório é também prova de diligência, base para decisões disciplinares, insumo para compliance e jurídico, e evidência de governança para auditorias e reguladores.
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Por que tantos relatórios de investigação falham?
Na teoria, o relatório de investigação deveria ser a ponte entre o que foi apurado e o que será decidido. Na prática, em muitas empresas, ele vira apenas um registro técnico do passado, sem impacto no futuro do negócio.
O problema não está na investigação em si, que muitas vezes é bem conduzida, mas na forma como o resultado é comunicado, estruturado e transformado (ou não) em decisão executiva.
Abaixo estão os principais pontos de falha que vemos com frequência no mercado:
Relatórios longos, mas sem resumo executivo
Um erro clássico é produzir relatórios extensos, cheios de detalhes técnicos, mas sem uma visão clara para quem decide. Para o C-level, tempo é escasso. Quando não existe um resumo executivo direto ao ponto, o relatório não é lido por inteiro, é interpretado de forma superficial, ou gera decisões baseadas em percepção, e não em evidências.
Como consequência, a alta liderança não entende a gravidade real do caso, subestima o risco ou posterga ações estruturais que deveriam ser imediatas.
Linguagem técnica demais para o C-level
Outro ponto crítico é quando o relatório é escrito apenas “para quem investiga”, e não para quem decide.
Logs, termos técnicos, siglas, detalhes de sistemas e fluxos operacionais fazem sentido para áreas de fraude, TI e segurança. No entanto, para o C-level, o que importa é risco, impacto no negócio, exposição regulatória, risco reputacional e implicações estratégicas.
Prints e logs sem contexto
Muitos relatórios são praticamente um compilado de evidências soltas: prints de tela, trechos de log, extratos, planilhas, entre outros. Neste sentido, o problema é não explicar o que cada evidência prova dentro da narrativa da investigação. Ou seja, quem lê não entende o que o print comprova, porque é relevante, e qual a relação com a hipótese investigada.
Conclusões sem conexão com evidências
Esse é um dos erros mais graves, quando o relatório “afirma” algo, mas não deixa claro como chegou àquela conclusão. Cada conclusão precisa estar claramente ligada a evidências, análises, correlações e limites do que foi possível comprovar.
Caso contrário, sem evidências, a decisão vira frágil juridicamente, em auditorias e até internamente em processos disciplinares.
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Recomendações genéricas
“Reforçar controles”, “treinar equipe”, “melhorar processos” são recomendações que aparecem facilmente em um relatório, mas essas práticas se tornam vagas e difíceis de executar. Por isso, o documento precisa ir além, tendo sugestões específicas, acionáveis, atribuíveis a responsáveis e priorizadas no tempo.
Sem ligação com impacto financeiro, regulatório ou reputacional
Relatórios que ficam apenas no nível técnico perdem força política dentro da empresa. Quando não conecta a fraude com perdas financeiras, risco regulatório, exposição jurídica, impacto na marca e na confiança do cliente, o relatório não traz informações relevantes e deixa de ser prioritário.
Assim, o tema ‘fraudes’ perde espaço para outros projetos “mais estratégicos” até a próxima crise acontecer.
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Quais os componentes do relatório de investigação eficiente?
Outro estudo da PwC destaca que indicadores como “número de relatórios de incidentes”, “tempo médio para decisão em casos reportados” e “taxa de confirmação de incidentes” são considerados métricas críticas para acompanhar a eficácia de processos de investigação e gestão de riscos.
Isso reforça que relatórios bem elaborados não são apenas documentação, mas instrumentos de monitoramento, melhoria contínua e tomada de decisão.
Nesse sentido, um bom relatório de investigação de fraudes precisa ser claro para dois públicos ao mesmo tempo: executivo (C-level, diretoria e conselho) e técnico (áreas de fraude, risco, compliance, jurídico e segurança).
Confira uma estrutura recomendada:
1) Resumo executivo
Explique em 5–8 parágrafos: o que aconteceu, impacto, conclusão e recomendações prioritárias
Regra prática: se o C-level só ler essa parte, ele entende o caso?
2) Contexto e escopo da investigação
Por que a investigação foi aberta? Qual o período analisado? Quais sistemas, processos e áreas foram incluídos?
3) Metodologia
Como as evidências foram coletadas? Quais fontes foram analisadas (logs, entrevistas, documentos, sistemas etc.)? Houve cadeia de custódia?
4) Evidências coletadas
Evidências digitais, físicas e documentais, depoimentos e entrevistas.
5) Análise e reconstrução do caso (modus operandi)
Como a fraude aconteceu? Quais falhas foram exploradas? Houve participação interna? Como o dinheiro/dados circularam?
6) Impactos para o negócio
- Financeiro;
- Operacional;
- Regulatório;
- Reputacional;
- Risco de reincidência.
7) Conclusões
O que ficou comprovado? O que não pôde ser comprovado? Quais hipóteses foram descartadas?
8) Recomendações acionáveis
Seguem exemplos positivos de como traçar recomendações: implementar dupla validação no fluxo X, rever acesso do perfil Y, integrar monitoramento Z, abrir processo disciplinar conforme política interna.
9) Anexos
- Linha do tempo;
- Cadeia de custódia;
- Evidências técnicas;
- Logs completos;
- Prints contextualizados.
Como fazer um relatório de investigação: passo a passo prático
A qualidade do relatório de investigação depende diretamente da clareza de objetivo, da organização das evidências e da capacidade de traduzir técnica em decisão de negócio.
Abaixo está um guia prático para estruturar relatórios realmente efetivos:
Defina o objetivo do relatório
Antes de redigir qualquer parágrafo, responda com honestidade:
- Esse relatório vai apoiar qual decisão? Exemplos: medida disciplinar, revisão de processos, ação judicial, reporte a regulador, decisão de investimento, entre outros;
- Nível de detalhe: mais técnico ou mais executivo;
- Leitor decisor do documento: C-level, área jurídica, compliance, auditoria, riscos, fraudes, segurança corporativa ou cibersegurança;
- Linguagem: operacional vs estratégica;
- Nível de formalidade e robustez jurídica.
Saiba mais: Estratégia de segurança: evite silos e integre setores da empresa
Organize as evidências antes de escrever
Alinhe tudo em uma estrutura simples e lógica, contendo:
- Evidências digitais (logs, trilhas de auditoria, acessos, transações, e-mails, registros de sistemas);
- Entrevistas e depoimentos (resumos, transcrições, contradições, pontos de convergência);
- Documentos (contratos, políticas internas, registros de onboarding, KYC/KYE, aprovações);
- Cronologia dos fatos (linha do tempo clara do que aconteceu, quando e em qual contexto).
Não escreva o relatório enquanto ainda está “descobrindo o caso”. É um erro comum elaborar o documento “no fluxo da investigação”, o que pode gerar contradições, narrativa confusa, conclusões precipitadas e lacunas que aparecem depois.
Construa a narrativa do caso
O relatório não é uma sequência de eventos. É uma história investigativa com começo, meio e fim.
Evite o estilo “diário de bordo”: “No dia X houve acesso. No dia Y houve transferência. No dia Z houve nova movimentação.”
Prefira construir uma narrativa causal: “O fraudador explorou a falha no processo de redefinição de acesso, permitindo a tomada de controle da conta. A partir disso, iniciou transferências fracionadas para dificultar o rastreamento dos valores, utilizando contas de passagem para pulverização do dinheiro.”
Portanto, uma boa narrativa precisa ter:
- Qual era o contexto do ambiente;
- Qual vulnerabilidade foi explorada;
- Como o ataque ou fraude evoluiu;
- Qual foi a intenção do agente;
- Quais controles falharam;
- Como o impacto se materializou.
Traduza técnica em impacto de negócio
Aqui é onde muitos relatórios perdem força política dentro da empresa. Toda constatação técnica precisa responder:
- Qual risco gerado para o negócio?
- Qual indicador estratégico foi afetado?
- A empresa ficou exposta a qual tipo de sanção ou crise?
- Isso pode se repetir em escala?
Exemplo positivo:
“A falha no controle de acesso permitiu account takeover, resultando em perda financeira estimada de R$ X, aumento de risco regulatório por falha de controles mínimos de segurança e potencial impacto reputacional em caso de judicialização do cliente.”
Essa análise transforma o relatório em instrumento de decisão estratégica, não só técnica.
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Termine com recomendações claras e priorizadas
Um relatório sem recomendação prática vira um diagnóstico sem tratamento. Evite sugestões genéricas como “reforçar controles”, conforme falamos anteriormente.
Classifique as ações por prioridade e horizonte de impacto:
- Ação imediata (mitigar risco agora): bloqueio de acessos específicos, suspensão temporária de um fluxo vulnerável, revisão emergencial de permissões, comunicação preventiva ao jurídico/compliance etc.;
- Ação de curto prazo (corrigir a falha): ajustes em regras antifraude, criação de etapa adicional de validação, revisão de políticas de onboarding, ajustes em monitoramento transacional, entre outros;
- Ação estrutural (evitar reincidência): revisão de modelo de governança, integração de ferramentas antifraude, reestruturação de processos críticos, implantação de segregação de funções, revisão do framework de monitoramento de riscos etc.
É importante que toda recomendação envolva o que fazer, quem é o responsável, prazo sugerido e risco mitigado.
Saiba mais: Gestão inteligente: a importância de tomada de decisões informadas no combate a fraudes
Exemplos práticos de uso do relatório para tomada de decisão
Caso 1 — Fraude interna em processo de reembolso
Relatório mostrou padrão de reembolsos aprovados pelo mesmo gestor, fora da política. Decisão: revisão do processo + investigação interna + ajuste de alçadas.
Caso 2 — Account takeover em fintech
Relatório mostrou falha no reset de senha por canal humano. Decisão: revisão de política de autenticação + integração de solução antifraude.
Caso 3 — Desvio em operaç+ão logística
Documento reconstruiu cena e comprovou conluio entre fornecedor e colaborador. Decisão: encerramento de contrato do terceiro + ação jurídica + revisão de onboarding, além de medida disciplinar ao profissional.
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Como a GIF International transforma investigações em decisões
Na GIF International, a investigação não termina quando a fraude é identificada. Ela termina quando o relatório permite mudar processos, mitigar riscos e interromper ciclos de fraude.
Nossa atuação integra:
- Investigação estruturada;
- Análise forense;
- Coleta de evidências;
- Reconstrução de modus operandi;
- Identificação de responsáveis;
- Análise de vulnerabilidades;
- Recomendações acionáveis para gestores, líderes e executivos;
- Apoio ao setor jurídico das empresas.
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