No início do mês de julho de 2025, o ataque hacker ao Banco Central evidenciou uma das faces mais perigosas e silenciosas da fraude corporativa: o aliciamento de funcionários. Além disso, trouxe novamente à tona a preocupação em relação à segurança cibernética de empresas conectadas ao ecossistema do Bacen.
O caso envolveu o ataque hacker à C&M Software, empresa de tecnologia vinculada ao Banco Central e que interliga as instituições financeiras ao sistema do BC, incluindo operações de PIX.
Tal episódio resultou em um desvio de ao menos R$ 800 milhões, com o prejuízo podendo ultrapassar R$ 1 bilhão, segundo o delegado Paulo Eduardo Barbosa, da Delegacia de Crimes Cibernéticos (DCCiber) da Polícia Civil de São Paulo à época das investigações. A maior parte do dinheiro foi transferida para contas laranja ou criptomoedas, dificultando o rastreamento.
Fato é que o incidente se tornou o maior ataque cibernético envolvendo o PIX desde sua criação há 5 anos.
No entanto, a fraude não impactou os grandes bancos diretamente. Na verdade, foram afetadas instituições financeiras menores e fintechs, que utilizam intermediárias como a C&M Software para se conectar ao Banco Central.
Peça-chave do ataque hacker à C&M
Um dos elementos centrais da fraude foi a participação de João Nazareno Roque, de 48 anos, profissional de tecnologia da informação que atuava na C&M Software. Ele foi preso pela Polícia Civil de São Paulo, sob a acusação de vender acesso privilegiado a hackers, o que facilitou a invasão do sistema e o desvio de valores.
Roque, que trabalhava na empresa há cerca de três anos, confessou ter vendido acesso ao sistema da empresa por R$ 15 mil. O operador de TI contou ainda que, meses antes da ocorrência, foi abordado ao sair de um bar em São Paulo por um homem que sabia de sua profissão e ofereceu o dinheiro.
Ou seja, esse profissional, motivado por ganho financeiro, possibilitou o acesso indevido a dados sigilosos e aos sistemas da instituição. A ação, inicialmente tratada como um ataque hacker comum, logo indicou contornos mais complexos com a cooptação interna.
O ataque hacker à C&M revelou falhas de governança, de controle de acessos e, principalmente, a ausência de estratégias eficazes para lidar com riscos humanos e comportamentais, como no caso de aliciamento.
Investigações do ataque hacker à C&M
Após a prisão inicial do funcionário da C&M, a Polícia Federal continuou as investigações e realizou operações, que prenderam 21 envolvidos, sendo 13 no Brasil, seis na Espanha e dois na Argentina, com ajuda da Interpol.
A operação da Diretoria de Combate a Crimes Cibernéticos fechou balanço com 13 presos no Brasil, sendo sete em Goiás, um em Brasília, dois em Santa Catarina, um em São Paulo, um em Minas Gerais e um na Paraíba. Houve, ainda, oito prisões no exterior, sendo seis na Espanha e dois na Argentina, com apoio da Interpol.
Inclusive, no evento Febraban SEC 2026, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, comparou o crime de 2025 com o grande assalto ao Banco Central, em Fortaleza, quando dezenas de criminosos escavaram um túnel e roubaram quase R$ 165 milhões do caixa-forte, em 2005.
“20 anos depois, dois jovens em um hotel de Brasília com apenas um notebook transferiram mais de R$ 800 milhões via Pix. Risco zero, sem uma gota de sangue, sem nada, um notebook e dois olhos”, disse Rodrigues.
Quais as principais causas do ataque hacker ao Banco Central?
Além do aliciamento que foi ponto central e veremos detalhes mais à frente, outros fatores colaboraram para a ocorrência do ataque e provocaram preocupações, como as vulnerabilidades do PIX, a gestão de terceiros, os problemas na segurança cibernética e a falha humana.
Alerta no PIX
A fraude nesse incidente gerou debates sobre a capacidade de proteção do sistema de pagamentos instantâneos. Contudo, o PIX, em si, não sofreu uma violação, já que se tratou de uma invasão em uma empresa intermediária, com acesso legítimo à rede.
De qualquer forma, para aumentar a segurança das transações via Pix e combater as fraudes, o Banco Central implementou regras para proteger os usuários e dificultar a ação dos criminosos.
Confira aqui as normas recentes de combate a fraudes no PIX!
Preocupação com terceiros
No fim das contas, o episódio também ligou o alerta sobre a participação de terceiros nas transações digitais e a falta de supervisão sobre essas empresas que atuam como pontes entre bancos e o Banco Central, como a C&M. Vale lembrar que as organizações conectadas ao ambiente financeiro exercem funções estratégicas dentro da operação das instituições.
Além disso, algumas instituições financeiras concentram seus controles apenas no ambiente interno, deixando lacunas relevantes na gestão de terceiros. E um fornecedor vulnerável pode se tornar um risco sistêmico.
Leia também: Gestão de risco de terceiros: como mitigar exposição a fraudes
Falha na segurança cibernética
No ano passado, o Brasil registrou 76 incidentes cibernéticos, volume 29% superior em relação a 2024, e com uma grande mudança na natureza dos problemas.
Até 2024, as falhas de tecnologias dominavam o cenário, com apenas 9 incidentes considerados fraudes. No ano passado, por sua vez, as fraudes lideraram as ocorrências, com 39 casos, contra 27 falhas técnicas.
Com este cenário, o Banco Central colocou em prática a Resolução BCB Nº 538 em dezembro de 2025, a fim de evoluir a regulamentação de segurança cibernética no Brasil. Esta norma eleva os padrões de segurança e resiliência cibernética aplicáveis a instituições financeiras.
Leia também: Regulamentação de segurança cibernética no setor financeiro
Vulnerabilidade humana
Outro ponto crítico é a vulnerabilidade humana e o risco de que, mesmo com todos os processos de segurança aprimorados, o aliciamento e os desvios de conduta dos colaboradores continuem a ocorrer.
Entendendo o aliciamento de funcionários: uma ameaça sistêmica
O aliciamento de funcionários é a prática de cooptar colaboradores para colaborar com agentes externos, geralmente criminosos, em troca de favores, dinheiro ou sob coerção. O objetivo dos aliciadores é obter acesso a dados e sistemas, como no ataque hacker à C&M, ou ainda vantagens indevidas.
Essa cooptação tem se tornado uma ameaça cada vez mais presente nas empresas e costuma afetar principalmente setores com alto volume de dados, acesso a infraestrutura crítica e controle de informações sensíveis, como financeiro, tecnologia e telecomunicações.
Vale destacar que essa prática representa um risco tanto operacional quanto estratégico, afetando diretamente a integridade, a reputação e a segurança das instituições. Até porque o sistema financeiro depende de operações altamente conectadas, contínuas e integradas.
Então, essas fraudes digitais, como o ataque hacker à C&M, podem gerar efeitos em cadeia. Entre os principais riscos estão:
- Indisponibilidade de serviços;
- Interrupção de transações;
- Exposição de dados sensíveis;
- Fraudes financeiras;
- Perda de confiança do mercado.

Como o aliciamento acontece?
Os métodos de aliciamento, que abriu as portas para o ataque hacker à C&M, são variados e sofisticados, envolvendo por exemplo:
- Chantagem e ameaça: uso de informações pessoais ou familiares para forçar a colaboração;
- Suborno e corrupção: promessas de dinheiro, presentes ou benefícios futuros;
- Engenharia social: manipulação emocional ou psicológica para extrair dados ou acessos;
- Espionagem tecnológica: instalação de softwares maliciosos por dentro da estrutura, sob o disfarce de um suporte técnico;
- Recrutamento interno em cadeia: colaboradores cooptados recrutam outros;
- Aproveitamento de privilégios e acessos: abuso de confiança para benefício próprio ou de terceiros.
Esse tipo de risco é frequentemente subestimado pelas empresas, que concentram seus esforços em barreiras técnicas, esquecendo que uma única credencial comprometida por má fé pode abrir portas para grandes violações.
Leia também: Desafios atuais na prevenção a fraudes internas
Como combater o aliciamento de forma estruturada?
Para enfrentar essa ameaça com seriedade, as organizações precisam de uma abordagem integrada que envolva cultura organizacional, tecnologia, governança, monitoramento, inteligência e resposta a incidentes.
A seguir, exploramos os pilares essenciais para a prevenção ao aliciamento:
1. Fortalecer a cultura ética e de segurança
Este é o primeiro e mais decisivo passo para evitar que o aliciamento consiga explorar brechas nas empresas. Quando os colaboradores compreendem o valor da integridade, sentem-se pertencentes a um ambiente de confiança e sabem que há canais seguros para denunciar irregularidades, a vulnerabilidade aos ataques internos diminui consideravelmente.
As organizações que investem em cultura não apenas reduzem riscos, mas também criam barreiras naturais contra práticas antiéticas, promovendo um ecossistema em que a segurança começa pelas pessoas.
Para desenvolver essa cultura ética e de segurança, é preciso:
- Realizar campanhas permanentes de conscientização sobre riscos internos e engenharia social;
- Promover treinamentos regulares sobre ética, lealdade, responsabilidade digital e prevenção de fraudes;
- Estimular canais seguros e anônimos de denúncia;
- Valorizar comportamentos éticos por meio de programas de reconhecimento e incentivo.

2. Reforçar o controle de acessos e ambientes tecnológicos
No contexto do ataque hacker à C&M, ficou evidente que credenciais privilegiadas mal gerenciadas ou indevidamente acessadas podem abrir caminho para violações de larga escala.
A proteção de sistemas críticos não depende apenas de firewalls ou antivírus, mas da combinação inteligente de políticas de acesso, segmentação de ambientes, autenticação robusta e vigilância contínua. Veja dicas sobre o que fazer:
- Implementar segregação de ambientes críticos, com acesso mínimo necessário e controles de privilégio;
- Fazer a revisão periódica das permissões de acesso, incluindo prestadores de serviço e terceirizados;
- Adotar a autenticação multifator (MFA) e controle de conexões externas, especialmente via VPN;
- Garantir o bloqueio de dispositivos não autorizados e realizar varreduras regulares no ambiente computacional;
- Monitorar comportamentos fora do padrão, como acessos noturnos, movimentações atípicas, entre outros, para detectar riscos.
Saiba mais: Gestão de identidade e acesso: descubra por que implementar
3. Implementar monitoramento ativo e controles preventivos
Mesmo com uma cultura organizacional fortalecida e controles de acesso bem estabelecidos, nenhum sistema é verdadeiramente seguro sem monitoramento contínuo e tecnologias de prevenção eficazes.
Por isso, é fundamental implementar medidas capazes de detectar, em tempo real, atividades suspeitas, tentativas de vazamento de dados ou movimentações atípicas, como por exemplo:
- Soluções de DLP (Data Loss Prevention) e SIEM ((Security Information and Event Management) para detectar vazamentos e comportamentos suspeitos;
- Políticas de firewall robustas, com limitação de conexões externas e proteção de sistemas críticos;
- Integração com serviços de inteligência cibernética, incluindo o monitoramento da deep e dark web, para detectar tentativas de cooptação ou comercialização de acessos e dados confidenciais.
4. Integrar governança, riscos e compliance
Muitas empresas tratam riscos humanos como eventos isolados, quando, na realidade, eles devem fazer parte de uma visão sistêmica de governança, riscos e compliance. A integração desse tripé fortalece a capacidade da empresa de antecipar ameaças e responder com agilidade.
Confira as principais ações para sua empresa:
- Incluir o tema aliciamento nas matrizes de riscos operacionais e de integridade;
- Avaliar riscos envolvendo terceiros, fornecedores de tecnologia e participantes indiretos;
- Garantir controles e registros robustos sobre movimentações e transações internas.
5. Estar pronto para agir em caso de incidente
Mesmo com políticas robustas de prevenção, nenhuma organização está totalmente imune a incidentes de cooptação interna. Logo, ter uma estrutura de resposta rápida, coordenada e disciplinar é fundamental para minimizar danos. Até porque a lentidão na apuração ou a omissão diante de evidências concretas pode comprometer a segurança da operação.
Para tanto, sua empresa deve implementar estratégias de resposta, como por exemplo:
- Ter um plano claro de resposta a incidentes que envolvam cooptação de colaboradores;
- Preservar evidências digitais com cadeia de custódia válida, garantindo base sólida para adoção de medidas disciplinares ou judiciais;
- Atuar em conjunto com jurídico, compliance e autoridades públicas, de forma coordenada, para responsabilização dos envolvidos.
Saiba mais: Como a gestão de riscos se torna estratégica e fortalece o combate a fraudes
A visão da GIF International sobre o cenário atual
Pablo Colombres, CEO da GIF International, destaca que o assunto de aliciamento não é novidade agora com o caso do ataque hacker à C&M e vem tratando com clientes, parceiros e órgãos públicos há alguns anos sobre o aumento dos casos envolvendo a cooptação.
“O aliciamento de funcionários não é ficção, nem exagero. É realidade concreta e crescente. Enfrentá-lo exige mais do que tecnologia: requer cultura, processo, liderança e uma arquitetura de controles bem integrada”, disse o executivo, que enfatizou a importância de as instituições atuarem o quanto antes para combater esse risco.
“As empresas que desejam se proteger devem agir agora. Reforçar a cultura ética, aplicar tecnologia de segurança com inteligência e criar um ecossistema de resposta ágil é essencial para manter a confiança do mercado e a integridade das operações”, comentou Colombres.
No 2º Congresso de Prevenção e Repressão a Fraudes da Febraban, o CEO da GIF International também falou sobre os riscos das fraudes internas. Veja abaixo:
Além do setor financeiro: o alerta é para todos
Embora o episódio do ataque hacker à C&M tenham acontecido no setor financeiro, os riscos se estendem para todas as áreas que lidam com dados sensíveis, como:
- Telecomunicações, em que informações de clientes e infraestrutura podem ser exploradas;
- Saúde com dados médicos e registros sigilosos;
- Infraestrutura crítica, como energia, transportes e abastecimento;
- E-commerce e meios de pagamento, já que as transações financeiras são alvo constante;
- Entre outros.
Como a GIF International pode ajudar sua empresa
O ataque hacker mostrou como a fraude moderna é híbrida, combinando tecnologia, engenharia social e cooptação interna. O caso C&M acende um alerta definitivo para empresas de todos os setores, mostrando que ignorar os riscos humanos é um erro estratégico.
Adotar medidas de prevenção ao aliciamento de funcionários, fortalecer a cultura organizacional e contar com parceiros especializados como a GIF International pode fazer a diferença.
A GIF International atua na proteção estratégica de empresas com um ecossistema completo de soluções de combate a fraudes, que inclui:
- Investigação corporativa;
- Desvio de conduta;
- Threat Intelligence;
- Risk Assessment;
- Prevenção à Lavagem de Dinheiro;
- Biometria de voz;
- Brand Protection;
- E muito mais!
Dentro de nossas investigações, coletamos evidências, identificamos os envolvidos, oferecemos suporte jurídico para responsabilização e apontamos pontos de vulnerabilidade para evitar a reincidência dos casos.
Nosso time multidisciplinar combina inteligência, ética, sigilo e tecnologia para proteger a integridade da sua operação. Quer conhecer melhor nossas soluções? Entre em contato com nossos especialistas agora mesmo!













